Choropedia
Luiz Americano: clarinetista, saxofonista e compositor
Verbete sobre Luiz Americano (1900–1960), clarinetista, saxofonista e compositor de choro, parceiro de Pixinguinha e autor de Lágrimas de virgem.

Introdução
Luiz Americano do Rego (Aracaju, Sergipe, 27 de fevereiro de 1900 – Rio de Janeiro, 29 de março de 1960) foi clarinetista, saxofonista e compositor brasileiro, reconhecido como um dos principais instrumentistas do choro na primeira metade do século XX.
Com uma carreira desenvolvida entre orquestras, gravadoras e emissoras de rádio, destacou-se tanto pela interpretação quanto pela criação de um repertório próprio. Suas composições, entre elas É do que há, Numa seresta e Lágrimas de virgem, tornaram-se referências para gerações de músicos.
Colaborador frequente de Pixinguinha, participou de formações importantes da música popular brasileira e atuou ao lado de nomes como Radamés Gnattali e Luciano Perrone.
Formação e primeiros anos
Filho de Jorge Americano, mestre de banda em Aracaju, Luiz começou a estudar clarineta aos 13 anos, orientado pelo pai. Sua formação musical ocorreu no ambiente das bandas, que desempenhavam papel importante no ensino e na prática instrumental brasileira.
Em 1918, ingressou no Exército e passou a integrar a banda de seu quartel em Aracaju. Pouco depois, foi transferido para Maceió, Alagoas, onde serviu no 20º Batalhão de Caçadores. Em 1921, foi transferido para o 3º Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro, então capital federal, onde passou a desenvolver sua carreira profissional.
Após deixar o serviço militar, em 1922, começou a trabalhar como clarinetista e saxofonista em conjuntos e orquestras. Entre as formações das quais participou estavam as de Justo Nieto, Raul Lipoff, Simon Bountman e Romeu Silva, ligadas ao movimentado circuito musical carioca. No início da década de 1920, também participou do acompanhamento instrumental de gravações realizadas na Odeon.
As primeiras gravações e a passagem pela Argentina
Na década de 1920, Luiz Americano começou a registrar suas interpretações em discos de 78 rotações, principalmente pela gravadora Odeon. Seu primeiro disco como solista foi lançado em 1927, com a valsa Leda e o choro Sentimento, ambos de sua autoria, interpretados ao saxofone.
Seu repertório fonográfico reunia choros, polcas, maxixes e valsas, alternando composições próprias com obras de outros autores, como o maxixe Desordeiro, de Freire Júnior, gravado no mesmo ano. O saxofone ocupou lugar importante nesses primeiros registros, em um período no qual o instrumento ampliava sua presença na música popular brasileira.
Em 1928, viajou para a Argentina, onde atuou por três meses na orquestra do baterista norte-americano Gordon Stretton. Em seguida, integrou a orquestra de Adolfo Carabelli, músico de destaque na cena musical de Buenos Aires.
A experiência argentina ampliou sua atuação internacional e colocou o instrumentista em contato com diferentes repertórios e formações orquestrais. Em 1930, retornou ao Rio de Janeiro, onde formou o conjunto de dança American Jazz, que manteve por cerca de dois anos.
Pixinguinha e o Grupo da Guarda Velha
Em 1932, Luiz Americano passou a integrar o Grupo da Guarda Velha, formação criada por Pixinguinha que reunia, entre outros, Donga, João da Baiana, Bonfiglio de Oliveira e Vantuil, nomes importantes da tradição do choro e do samba.
A colaboração com Pixinguinha tornou-se uma das relações profissionais mais duradouras de sua carreira. Nesse ambiente, participou de gravações de cantores populares e de repertórios que aproximavam o choro, o samba e outros gêneros urbanos. Seu domínio da leitura musical e sua experiência como solista fizeram dele um instrumentista requisitado nas formações da época.
Em 1940, foi um dos músicos escolhidos por Pixinguinha, a pedido de Heitor Villa-Lobos, para as gravações realizadas pelo maestro Leopold Stokowski durante sua visita ao Brasil. Nessas sessões, lançadas pela Columbia na coleção Native Brazilian Music, interpretou composições próprias como Tocando pra você.
O rádio e as grandes orquestras
Com a expansão do rádio brasileiro, Luiz Americano passou a trabalhar regularmente em conjuntos de estúdio. Participou de acompanhamentos de cantores e gravações com arranjos de Pixinguinha e Radamés Gnattali, dois dos principais nomes da orquestração popular brasileira. Entre suas participações mais lembradas está o solo de introdução do fox Renúncia, sucesso que projetou o cantor Nelson Gonçalves em 1942.
Em 1937, integrou o Trio Carioca, ao lado de Radamés Gnattali ao piano e Luciano Perrone na bateria. Inspirado no trio de Benny Goodman, Gene Krupa e Teddy Wilson, o grupo gravou um único disco, com os choros Cabuloso e Recordando, de Radamés.
Trabalhou durante anos como músico de estúdio nas orquestras da Rádio Mayrink Veiga, uma das principais emissoras cariocas. Na década de 1950, ingressou na Rádio Nacional, onde permaneceu até sua morte.
Sua atividade profissional também incluiu apresentações em teatros de revista e casas de dança, ambientes que exigiam dos músicos familiaridade com diversos estilos e repertórios.
O clarinete, o saxofone e o choro
Luiz Americano construiu sua carreira dominando dois instrumentos de sopro com características distintas. Tanto na clarineta quanto no saxofone, destacou-se pela agilidade, precisão técnica e fluência melódica.
Suas gravações como solista apresentam melodias ornamentadas, passagens rápidas e articulações características do choro. O domínio técnico permitia executar linhas de grande movimentação, alternando frases cantáveis e trechos virtuosísticos.
Como compositor, dedicou-se especialmente ao choro e à valsa. A valsa Lágrimas de virgem, um dos destaques fonográficos de 1931, rendeu-lhe direitos autorais suficientes para comprar a casa em que viveu no bairro de Brás de Pina, no Rio de Janeiro.
Sua importância foi reconhecida ainda em vida: em 1954, Ary Barroso, em entrevista à Revista da Música Popular, citou-o entre os músicos mais importantes da música popular brasileira. Seu repertório continuou a ser gravado pelas gerações seguintes, como na versão de É do que há registrada por Netinho do clarinete em 1970.
Obras importantes
Entre suas composições estão:
- É do que há
- Numa seresta
- Lágrimas de virgem
- Assim mesmo
- Ao luar (letra posterior de Sérgio Brito)
- Intrigas do boteco do Padilha
- Tocando pra você
- Tigre da Lapa
- Sossega Juca
- Luiz Americano de passagem pela Arábia
- Sorriso de cristal (autoria também creditada a Érica Rego)
- Minha lágrima (autoria também creditada a Érica Rego)
Seu catálogo reúne obras preservadas em partituras manuscritas, edições comerciais e gravações históricas. Parte desse repertório permanece presente nas rodas de choro e nos estudos de clarinetistas e saxofonistas.
Discografia e registros selecionados
- Leda / Sentimento — Odeon, 1927
- Calamitoso / Muito me cantas — Odeon, 1927
- Na maciota / Desordeiro — Odeon, 1927
- Linda Erika — Odeon, 1929
- É do que há / Lágrimas de virgem — Odeon, 1931
- Numa seresta / Soluços — RCA Victor, 1931
- Intrigas do boteco do Padilha / Verdade — Odeon, 1940
- Saxofone, por que choras? / Lágrimas de virgem — Todamérica, 1953
- Chora, saxofone — RCA Victor, 1955
- Luiz Americano e seu conjunto — RCA Victor, 1956
- Luiz Americano – Saxofone, por que choras? — Intercdrecords, 2001 (reedição)
As gravações realizadas ao longo de sua carreira documentam sua atuação como solista e compositor, além de sua participação na consolidação do repertório instrumental brasileiro em disco.
Fontes
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete Luiz Americano.
- AZEVEDO, M. A. de (Nirez) et al. Discografia brasileira em 78 rpm: 1902–1964. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.
- Instituto Moreira Salles. Discografia Brasileira e acervo fonográfico de discos de 78 rotações.
- UCLA Library, Frontera Collection. Columbia Presents: Native Brazilian Music, vol. 2 (gravações supervisionadas por Leopold Stokowski).
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